Como um livro pode tocar tão fundo um coração? Em muitas ocasiões Deus usou livros comuns para falar comigo ou direcionar meus passos.
Após meu tratamento de câncer, um livro me despertou para um ministério que até então eu nunca desejei: capelania hospitalar. A cada página virada, meu coração ardia com o chamado de Deus.
Alguém me perguntou se eu desejei esse ministério e minha resposta sincera foi: Não! Minha vida está numa fase mais tranquila com filhos fora de casa, acabei de me tornar vovó de dois netinhos, gostaria de ter mais tempo para eles e para mim.
Sempre tive alguns desejos que não se concretizaram por falta de dom, como por exemplo tocar um instrumento musical ou cantar belamente ; ou ainda por falta de tempo: aprender inglês e viajar para fora do país; ou ainda por falta de prioridade: iniciar um grupo de bike para mulheres iniciantes com uma amiga .Esse último sonho se concretizou para minha amiga, mas não para mim que não pude integrar o grupo de pedal que idealizamos, pois nesse justo momento Deus me convocou ao ministério de capelania hospitalar.
Realizei uma pós graduação em capelania e aconselhamento, o que me exigiu muita leitura, fiz um curso EAD de capelania, promovi um curso de visitação hospitalar e após 10 meses de oração com outros irmãos de fé, finalmente conseguimos uma oportunidade de exercer a capelania num hospital de Belo Horizonte.
As portas se abriram!
Entrei no quarto e ela me olhou. Sua pele era amarela, muito amarela! Em estágio terminal me perguntou estou morrendo? Sua mãe e irmã estavam presentes e a dor das acompanhantes era latente.
Entrei no quarto e senti a dor dos pais e das vovós que cercavam aquela criança linda de cabelos dourados e pouquinha idade. Também cercavam aquele menino muitas cartinhas carinhosas de seus coleguinhas de escola e amiguinhos da escola bíblica. Em determinada noite, a igreja entoou cânticos como afago ao coração da família, podia-se vê-los pela janela lateral trazendo de outra cidade amor aos corações dos familiares que velavam a despedida paulatina daquele anjinho, e apesar de tudo a fé nunca deixou de ser notória a todos do hospital.
Entrei no quarto e ali estava uma jovem recuperando de uma cirurgia que a deixou cheia de sequelas. Sem andar, sem falar, mas com o raciocínio e a memória intactas. Uma professora e multi instrumentista que domina além do piano, mais sete instrumentos! Aguardando alta hospitalar e aguardando o milagre de Deus na sua recuperação.
Entrei na sala de espera e encontrei pais aguardando suas crianças que no momento estavam em cirurgia. Corações aflitos que se rendem ao consolo da oração.
Entrei no quarto . No leito uma menininha de unhas coloridas e na mesa algumas imagens, terço e bíblia aberta. A tv estava ligada e reproduzia uma missa. O olhar e a fala de uma mãe em negação não foi amistoso num primeiro momento, ao saber que eu era da capelania, foi mostrando sua indignação sobre a reforma da capela que se tornou ecumênica, tirando o santíssimo e as imagens do centro e transferindo para uma sala lateral. Nas entrelinhas a indignação contra tudo e todos, na lacuna falei do exemplo de fé de Maria e um “obrigado” selou a visita.
Entrei no quarto e ele se assentou na cama com olhos arregalados e cheios de pavor perguntando por três vezes: -Estou morrendo? Estou morrendo? Estou morrendo? A esposa tomou a palavra e o cerco do silêncio imperou.
Entrei no CTI. Em cada box uma história de dor, sofrimento e lágrimas. Em determinado leito um estudante de medicina recém operado, ladeado pelo irmão e cuidado pela mãe. Sonhos, estudos e carreiras suspensos pela hidrocefalia. Só restando esperança de dias melhores!
Entrei no quarto onde um homem bravo pela tv que não funcionava, se identificou como ateu, sem fé, sem qualquer experiência espiritual. Diante do meu questionamento do que lhe dava paz ao coração, ele me respondeu de pronto o nome do remédio do qual é usuário. Curioso pelo o que me fazia ser voluntária doando tempo no hospital, pois segundo ele seria mais fácil contribuir financeiramente com alguma campanha solidária, pude falar do meu relacionamento com Deus e ouvir ao final… quem sabe Ele se apresenta para mim e minha vida até melhore…
Entrei no CTI onde jazia uma jovem ladeada de seus pais e marido, faltava-lhe o ar, os cabelos, o sorriso, a beleza da saúde. O fôlego de vida se esvaia no ritmo do relógio. Sem fala e sem forças para o choro cada coração sabia que ela estava indo.
Entrei na Capela e amparei duas mulheres se derramando em lágrimas diante de Deus. O choro copioso tomava lugar das palavras e de joelhos elas suplicavam por seus bebês que travavam uma luta pela sobrevivência.
Uma linda mamãe se achegou à sala da capelania decidida a buscar conforto sussurrando: “- Meu bebê está morrendo no CTI!” E assim a reconheci na mulher que derramou nos pés de Jesus seu frasco de alabastro contendo um valioso unguento, era tudo o que de mais valioso possuía.
Muitas vezes ao entrar no quarto me deparei com o leito já vazio!